Foto em texto: Fotografia de aventura

Confesso que nunca fiz muito o estilo “aventureiro”. Na minha “pós-adolescência” cheguei a fazer algumas trilhas e subir alguns pontos, como o Corcovado; mas nada que me categorizasse como um praticante. Assim como a Fotografia de Viagem, a Fotografia de Aventura se tornou parte quase que obrigatória nos álbuns, principalmente online. Fica a dúvida, o que é Fotografia de Aventura?

A definição de aventura é simples:

Aventura
substantivo feminino
  1. circunstância ou lance acidental, inesperado; peripécia, incidente.
    “as a. de um andarilho”
  2. empresa de desfecho incerto, que incorre em risco, em perigo.
    “percorrer as montanhas do Nepal foi uma grande a.”
  3. conjunto de fatores que determinam um acontecimento ou um fim qualquer; contingência, eventualidade.
    “são a. da sorte”
  4. relacionamento amoroso passageiro.
  5. façanha de cavaleiro andante ou de cavalaria.

Só para alinhar, se você viajou para o sítio do seu tio em Governador Valadares ou subiu as dunas de Cabo Frio no carnaval, isso não é uma aventura!

Percebo levemente que aventura passou a ser qualquer situação que nos tire da rotina, vivenciar acontecimentos que saiam do ordinário. O problema é que isso dá brechas para o seguinte: qualquer coisa pode ser uma aventura para qualquer um! Parei pra pensar 2 minutos e aceito que esse conceito é de fato muito mais próximo da realidade.

Nasci e cresci no Rio de Janeiro, Digníssima e eu nos mudamos para Curitiba em 2015. Sem exageros, as duas perguntas que mais ouvi foram:

  1. Você já foi assaltado? (automaticamente a pessoa faz cara de criança curiosa quase rindo)
  2. Você já foi numa favela? Lá tem favelas, né?

Ou seja, o que pra mim era rotina, assaltos e favelas, para essas pessoas seria uma grande aventura. Se imaginam saindo do aeroporto correndo, abaixadas, desviando de balas perdidas, soldados e bandidos correndo as ruas com armas em mãos, prontos para dar vida por um ideal. Praias paradisíacas com água de coco, mulheres bronzeadas e homens sarados jogando futevôlei às 15h, no meio da semana. Noites regadas à álcool, defumadas em ervas ilícitas e recheadas de sodomia.

A menos que seja um filho nascido em berço de ouro, nada disso é verdade. A rotina carioca é bem banal e entediante, cinza e lenta… E engarrafada, muito engarrafada, não podemos esquecer.

Como não passo mais pelas aventuras encontradas em ruas estreitas da cidade maravilhosa, resolvemos buscar outras formas de entretenimento. O Paraná é um estado que oferece algumas opções, como escaladas, trekkings, acampamentos e viagens de imersão.

Recentemente fizemos a subida do Morro do Anhangava, um percurso relativamente leve, com 1,4 km de altura, 8 km de trilha percorridos em 2 horas (mais 2h de descida, obviamente). Qual foi meu primeiro pensamento? “Vou fazer várias fotos!” E na minha cabeça eu já estava vendo o resultado, o sol, o verde, o céu, as nuvens… Perfeito! Já imaginava isso:

Fotografia de aventura, um casal no alto da montanha

Quando falamos de fotografia de aventura seja ela qual for, existe uma série considerações. A primeira? Previsão do tempo. Senão, você terá várias fotos assim:

Isso não é um problema, como diria um professor que tive: “Foto boa, é foto boa!”

Quando pensamos em férias, passeio, aventura e natureza, pensamos em algo “feliz”. Soturno, sombrio ou melancólico não são adjetivos que procuramos para “um dia de aventura”. Eu não estava preparado, fui esperando um céu azul brilhante e não um cinza insosso. Na hora senti uma decepção enorme, mas resolvi aproveitar.

Eu não estava sendo pago por uma companhia de turismo, coletivo de aventura ou qualquer entidade que estivesse recheando meus bolsos. Estava a passeio, aproveitaria a oportunidade para fotografar. E foi o que fiz. Se eu estivesse a trabalho, voltaria para casa e retornaria em outro momento. Fotografia comercial/proporcional tem outras característica, todas, menos “um dia nublado chuvoso no meio do mato”.  Ok, há exceções.

Começamos a subida as 7:00, e durante todo o percurso o dia se manteve como na foto de cima. Em alguns momentos o sereno/garoa era tão contínuo que tive que guardar a câmera. Não consegui fazer fotos como queria, nem em quantidade e nem em qualidade. Mas mudei minha visão, busquei um pouco mais essa aura de mistério criada pela neblina extremamente grossa.

Todo mundo precisa saber a hora de guardar a câmera, seja qual for a ocasião. Estando no meio do mato, dependendo do tipo de percurso, isso será uma necessidade. Em alguns momentos não é possível se apoiar apenas com uma mão, sem contar a preocupação de bater com a câmera em uma pedra. O ideal é guardar a câmera, acelerar o passo até um ponto interessante e fotografar até o grupo se reunir. E isso cansa, HOR-RO-RES!

Definitivamente não é legal ficar pra trás com a cara grudada no visor, então quanto mais à frente ou no meio do grupo puder ficar, melhor. Eu acabei tendendo a ficar no meio, parava pra clicar e encontrava quem tava no fim da linha. Voltava a acelerar até alcançar o meio e voltava a fotografar. Sinceramente para manter esse ritmo numa trilha de dificuldade leve passa a ser moderada. Eu passei metade do tempo correndo.

Como eu não consegui fotografar a paisagem, resolvi focar no caminho: escadas, pedras, árvores e demais objetos que apareciam. Foi a forma que encontrei de produzir conteúdo sem depender do sol e da vista. Vale ressaltar que até metade do caminho consegui pegar um pouco de luz do sol, o que rendeu algumas panorâmicas, tanto na subida quanto na descida. O problema todo eram as nuvens baixas demais,  que também aproveitei para registrar os contrastes.

Depois de todo o caminho tortuoso, fotos pouco iluminadas e correria, cheguei ao topo. O que deveria ser uma recompensa por todo o esforço se resumiu em sentar para comer, o que não é necessariamente um problema. Definitivamente não tinha como fotografar a paisagem, a serração era tão grande que mal conseguíamos enxergar uma pessoa que estava a 4 ou 5 metros de distância.

A descida foi mais tranquila, mas só voltei a clicar quando o sol voltou a aparecer mais. Ainda próximo ao morro existe uma cachoeira bem legal e bem cheia, mas era tanta gente que não valia tanto. A verdade é que eu tava cansado e não tava afim de pensar em enquadramento sem pessoas se jogando na água.

Eu tive esses problemas porque não era um “passeio fotográfico”, existem atividades especificas para isso. O objetivo passa a ser o deslocamento até pontos estratégicos, parar para fotografar, um instrutor passar pequenas informações e seguir. Claro que o caminho é mais demorado, mas a ideia é produzir fotos e não “sair correndo”. No meu caso ninguém ia parar para me esperar, e eu também não teria a cara-de-pau de pedir para TRINTA pessoas esperarem eu me resolver.

Vale ressaltar que muitas vezes a Fotografia de Aventura flerta com a Fotografia de Natureza. Essa subida que eu fiz pra muita gente não é nada demais, e aventura tem muito mais ligação com adrenalina e emoção do que simplesmente andar no mato. Vai depender muito da percepção de cada um, são “definições” bem particulares.

Tudo isso que eu falei vale para DSLR, compactas, Power Shots e celulares. Se você só for fizer algumas selfies e tirar uma ou duas fotos da vista, então nem esquenta a cabeça.

Recomendações para sua próxima “aventura”. Seja ela no meio do mato ou no meio do tiroteio:

  1. Cuidado com o equipamento, se possível compre um bolsa/capa à prova d’água. Poeira e Chuva irão te perseguir;
  2. Lembre-se: leve a lente mais versátil do seu equipamento, evite peso desnecessário;
  3. Se prepare para cansar mais que o resto do grupo. Câmera pesa e você não pode se distanciar do grupo;
  4. Não se prenda ao tipo de foto que você imagina que pode ter, aceite o dia e tire proveito do clima;
  5. Confira a previsão do tempo, às vezes pode só estar nublado. Mas às vezes pode ser um dilúvio;
  6. Evite bolsa de dois pontos: apesar de prática para pegar/guarda a câmera, pode atrapalhar;
  7. De preferencia a um boné. É mais fácil virar a aba pra trás que ficar tirando e colocando um óculos escuros;
  8. Cuidado redobrado, se você cair o prejuízo não vai ser só um joelho ralado;
  9. Esteja preparado para se tornar o fotografo da viagem e ouvir muito “Colega, tira uma foto minha aqui?”. Você pode negar, fica a seu julgo. Eu nego. 😀
  10. Evite mexer em cartão, bateria e lente. Se alguma coisa cair no chão existe a possibilidade de ser roubada por formigas.

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