Foto em texto: Fotografia de Viagem

Recentemente Digníssima e eu resolvemos dar umas voltas pela capital paulista. Já havíamos passado à trabalho, mas nunca tivemos tempo de visitar alguns locais como o MASP. Ela está de férias, eu estava de folga, conseguimos passagem e hospedagem baratas, fizemos as mochilas e fomos.

Temos alguns gostos bem peculiares para turismo, ambos não curtimos muito turismo de compra, preferimos andar o máximo que pudermos e conhecer lugares que falem mais com a gente. Mesmo que esteja fora do roteiro “comum”, sempre acabamos achando alguma cantina italiana para nos empaturrarmos de carboidratos ou algum centro cultural que renda boas fotos.

Foi ai que comecei a pensar sobre fotografias de viagens.  Algo que tem se tornado cada vez mais comum, igualmente mais atrativo e reconhecido. Quem não quer ganhar a vida tirando foto de praias paradisíacas, pessoas exóticas, comidas coloridas e carros antigos? Mas não seriam todas as fotos feitas em viagens, simplesmente… Fotografia de viagem?

Sempre que posso estou fotografando, levo minha câmera comigo o tempo todo. Muitas vezes saio sozinho ou com um amigo de saídas, com o objetivo de fotografar. Então tudo é pensado no trabalho que será gerado, desde o horário que estarei na rua, local, posicionamento, tipo de lente, enfim, estou lá pra isso, leve o tempo que for. Já cheguei a passar 3 horas simplesmente com a câmera na mão esperando o começo da noite. Fiz uns clicks e fui embora. Não tinha contado com o horário de verão e tomei um chá de calçada.

Mas e aí? Quando viajo, vou fazer a mesma coisa? Nem fudend#!

Levo minha câmera e presto atenção o tempo todo, mas não estou sozinho; Digníssima é dona de uma paciência bíblica quando estou clicando, mas tem limites, né? Viajamos só nós dois, não tem criança para ter o momento “enquanto ela leva o capeta no banheiro eu espero essa borboleta voar”, não rola isso! Então se eu paro, ela para.

Com o roteiro do dia definido dou uma pesquisada rápida e penso nas fotos que posso fazer. Mas muitas vezes preciso encarar a realidade de colocar a câmera pra baixo e olhar a paisagem, estar presente no momento. E não pensando em enquadramento, iluminação, corte, sombras e cores. Ninguém está me pagando para estar ali, muito pelo contrário. Eu prefiro levar a recordação de um dia agradável e ter histórias pra contar do que ficar esfregando foto na cara das pessoas. Foto que, diga-se de passagem, pode representar nada pra ninguém, só pra mim.

Já fui aquele cara chato que pra tudo ficava enfiando a câmera na cara, não podia ver uma mesa posta que a mão já tremia e corria pra pegar o tripé. Foram algumas refeições frias até eu perceber que uma boa foto de um prato não chegava nem perto do seu sabor… Do momento e da comida. Pratos e vinho rendem boas fotos? Rendem, claro! Adoro! Mas hoje em dia me reservo a tirar uma foto, mesmo assim tem que ser rápido, se tiver que me mexer muito ou demorar mais que 1 minuto já abandono.

A mesma regra vale para locais públicos, e uma das maiores discussões é quando se fala em direito de imagem e direito de fotografar. Via de regra se estamos em um local PÚBLICO, ou seja, qualquer endereço que não seja particular/privado, temos o direito de fotografar livremente. Mas e se você chegar em algum lugar e pedirem para guardar a câmera? O que você faz, escândalo? Se joga no chão e esperneia? Xinga muito no Twitter? Não importa se é meu direito ou não, nenhum discussão desse tipo no mundo vale esse gasto de energia.

E foi justamente o que aconteceu recentemente, uma das visitas que fizemos foi em um museu, com um jardim lindo, uma sacada enorme com vista para rua e umas salas internas. Mas logo na porta tinha um aviso que para fotografar seria necessário se direcionar a administração, preencher um formulário e receber uma autorização… Mas só se for com uma câmera semi-profissional/profissional! Pra mim isso não faz o menor sentido, todo mundo estava com um celular na mão tirando selfies freneticamente. De dentro do museu tirei uma foto do prédio da frente, já sabe o que aconteceu, né?

– Oi, o senhor não pode tirar fotos aqui dentro.
– Eu sei, não to tirando daqui, foi do prédio ali do outro lado da rua.
– Mas também não pode.
– Ok, sem problema. Obrigado por avisar.

Cara, eu to viajando, quero conhecer um lugar diferente, conversando e rindo com minha esposa, não vou ficar me preocupando se posso ou não tirar fotos ali. Na dúvida eu guardo a câmera e vou ser feliz.

A fotografia se tornou acessível, atualmente qualquer câmera compacta e a maioria dos celulares geram resultados excelentes. Um celular muitas vezes passa despercebido, é super rápido e discreto, mas com bom senso dá ter umas fotos legais e aproveitar a viagem sem ficar registrando tudo o que passa pela frente. Para ser sincero acho até meio chato o tipo e pessoa que tira foto de tudo e tá o tempo inteiro fazendo upload no Facebook ou Instagram.

Olhando as minhas fotos vejo que não tem nada de mais, tem até pouco material. Percebi que me preocupo mais em fazer pequenos registros que sejam mais significativo para nós dois do que ter fotos mais elaboradas. São coisas simples como um adesivo na parede, um sinal de transito engraçado, uma fachada com mural, um prédio de arquitetura diferente ou até uma pintura que lembre uma piada interna.

Eu tenho três regras:

  1. Nunca ter fotos do tipo “Sou turista”. Não sabe do que to falando? Isso aqui, ó:
    Fotografia de viagem, o que não fazer. Um casal turista caricato.Sério, se você tem fotos assim PARE AGORA. Eu tenho certeza que você consegue algo mais criativo que isso.Inclusive sempre lembro dos álbuns onde TODAS as fotos eram assim, chega a ser chato de olhar. Só o que muda é a roupa e o fundo, até as posições são sempre as mesmas. “Essa aqui somos nós na praia; Essa aqui somos nós no hotel; Essa aqui sou eu em frente a estátua; Essa aqui somos nós na frente do barco”.  Prefiro ter uma foto da praia, uma do mapa e uma dos chapéus do que ter um registro assim.}
    _
  2. Nunca deixar que meu lado fotógrafo atrapalhe meu lado turista.
    Se eu tiver um projeto em andamento, ou ideia para um ensaio, com certeza vou pensar um pouco mais e vou separar algumas horas por dia para clicar. Fora isso, tenho que aproveitar. A cerveja belga no caneco com tampa é altamente fotogravável, mas vai esquentar, perder o aroma, as leveduras vão se depositar no fundo e vou perder o primeiro gole.
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  3. Fotos de viagem são pra mim. Não são pra Facebook, Instagram ou Flickr.
    Procuro variar os ângulos, até para manter a leitura das fotos em um ritmo fluido. Em raras exceções penso um pouco mais na fotografia como objetivo, mas no geral, são impressões mais pessoais. As fotos não são para o mundo, são para mim. Faço fotos que vão me remeter aquele dia, quero ter a lembrança que me tragam outras lembranças. Se no final tiver algo pertinente de ser compartilhado, farei.

Bom, já estamos pensando em alguma viagem curta para cidades próximas, dessa vez vou me preparar mais. Elaborar um roteiro de fotos é legal, geralmente se encaixa com os roteiros de turismo, mas quero pensar em algo que funcione como conteúdo fotográfico. Ainda to pensando na produção de conteúdo aqui pro blog, tô curioso com o resultado que pode sair.

Acho que dá pra deixar algumas ideias para a sua próxima viagem, são coisas que penso e pode ajudar:

  1. Tire um tempo só para fotografar. Pode ser um bom momento para tirar fotos sem pressão: saia depois do café e encontre com as pessoas no almoço, por exemplo;
  2. Se tiver força de vontade, saia para clicar na hora dourada da manhã… às 5 da matina. Se conseguir me avisa, pra mim nunca rola rsrs;
  3. Nem todo mundo quer ser fotografado, tenha sensibilidade;
  4. Preste atenção no que acontece a sua volta, às vezes vale mais a pena tirar foto do entorno do ponto turístico do que do ponto em si;
  5. Nem todo lugar aceita bem fotografias, na dúvida, pergunte. Senão puder, guarde a câmera e siga em frente;
  6. Experimente tirar fotos nos locais em que todo mundo também fotografa, mas tente algo diferente, as vezes alguns passos pro lado já sai do obvio;
  7. O inesperado não avisa que tá chegando, enquanto estamos na rua os acontecimentos podem ser mais interessantes que a rua;
  8. Esteja preparado para não fotografar;
  9. Se você não conhece uma rua pouco movimentada, não ande com a câmera na mão;
  10. Se um lugar não é permitido fotografar, isso quer dizer que você não é especial e pode “tirar uma, rapidinho”;
  11. Estabeleça algumas metas como uma foto em todo lugar que for, uma foto por dia, foto todas as manhã… Mas pense nos pontos anteriores, não se torne uma mala sem alça!

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