Ghost, a banda de um homem só

Ghost é uma banda complicada. Tem papagaiada no palco, estética sonora esquisita, nome de integrantes “não relevados”, integrantes que nunca param na banda e ainda tem um cara vestido de papa. Formula perfeita para o sucesso, não?

A primeira vez que ouvi vivenciei uma mistura de repulsa e atração. Na época eu estava tentando ler A Divina Comédia – já tentou ler essa porra?? – , caiu no meu colo Infestissumam (2013), e tanto a estética visual quanto a sonoridade casaram bem com o enredo de Dante Alighieri. Meio que uma trilha sonora de um filme de Horror, inclusive está na minha lista de afazeres ouvir Ghost e ler Lovecraft, depois reporto a experiência.

Essa premissa da não ter “uma cara” destoa do que estamos tradicionalmente acostumados, mas também não é novidade gente mascarada no palco, afinal de contas, o  Secos e Molhados  Kiss já fazia isso desde o século passado. SlipknotMushroomhead e todas as 500 milhões de banda de Black Metal que se apresentam, cheias de pasta d’água e usando pseudônimos, é o mesmo caminho.

A grande diferença é ser uma banda que explicitamente rotaciona os integrantes, de tempos em tempos se renova um guitarrista ali, depois um baterista só grava e vai embora e finalmente esse ano chega aos nossos ouvidos o rumor da banda inteira ser reciclada, com exceção de Papa Emeritus, creditado como único membro permanente desde a formação da banda. Até agora, rumor não confirmado.

Isso tudo me lembra muito o Gwar, onde Oderus Urungus (David Brockie) foi o único membro permanente desde a formação. A banda se tornou um grande espaço para “quem quisesse” contribuir com a construção da banda, os discos foram evoluindo e com certeza a circulação frequente de integrantes colaborou para isso. Claro, como tudo era arquitetado pela mesma pessoa, o projeto no final apresentava sempre um formato coerente.

Gwar foi a primeira coisa que me veio a cabeça quando li a última entrevista com o Ghost. Falando ao Metal Wani um Nameless Ghoul – ou Tobias Forge, se preferir – diz (tradução livre):

De um ponto de vista pratico, você está interessado em manter a mesma formação, por outro lado, preservar a sonoridade, ou os elementos que constroem esta sonoridade, e você ainda quer progredir. Eu acho que um dos segredos por trás da nossa habilidade de preservar [a sonoridade] é o fato de não termos necessariamente a obrigação de ter as mesmas seis pessoas reunidas para produzir este som, o que ajuda. “

Cara, no final, se todo mundo tiver comprometido em fazer o som sombrio, apocalíptico e obscuro característico do Ghost, o disco vai sair e vai agradar a quem tiver que agradar; eu curto a ideia. Vai dizer que na padaria da esquina quando o padeiro se demite, você se desespera achando que o mundo vai acabar?

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