Miles Ahead …

…E como deixei de ser um Headbanger imbecil!

Um dos primeiros posts que escrevi quando comecei o blog foi sobre o disco do Tony Bennett com Bill Charlap. Sim, é exatamente isso que você leu. Eu ACHO que hoje em dia não tenho cara de “metal”; se você me olha na rua sou mais um transeunte sem graça de cara aguada. Mas, definitivamente, também não tenho cara de “jazzero”. Pois bem, este tal post nunca foi publicado.

Na ocasião não fazia sentido publicar, afinal de contas, se alguém chegasse ao blog atrás de metal não ia parar pra ler; e se, por alguma obra do destino, fosse alguém com uma inclinação maior para Piano Jazz, nem fudendo que iria parar pra ler sobre Cannibal Corpse – convenhamos, é a mais pura verdade. Com o post terminado, depois de ouvir o disco várias vezes e conversar com a Digníssima, chegamos à conclusão de que ia ficar meio out of place, e que o ideal seria focar em um assunto – aquela história de segmentos de mercado sabe? –  e o mais lógico seria um que eu tivesse uma afinidade maior.

Durante muito tempo eu só ouvi um estilo de música: metal (e suas vertentes). Fui absorvido, devorado, engolido e regurgitado por um monstro gigante, pesado e barulhento que me fez ser um imbecil apaixonado durante décadas. Tá bom, OK, muito bonito esse momento de coração aberto, mas “Onde você quer chegar com essa lenga-lenga?”, você me pergunta. Durante a maior parte da minha vida eu fui um ignorante tapado. Eu não me permitia gostar de outros estilos, eu não me permitia sequer experimentar outros gêneros musicais; tudo o que o mundo gostava, por dentro eu fazia cara de criança quando vê um prato de verduras. A verdade é que era preconceito, puro e simples, ou seja, eu estava no armário.

Com o passar do tempo fui experimentando outras coisas. Acho que o primeiro estilo que me deu um tapa na cara foi o Blues. De tanto passar pelos artistas de rua que tocavam no centro da cidade, comecei a prestar mais atenção, passei a procurar os grandes nomes do Blues. O que foi um choque, porque os caras tocavam – às vezes não tão tecnicamente – tão bem quanto os mestres da guitarra; mas eram músicas que comunicavam perfeitamente comigo, e foi então que comecei a sair do armário. Era uma fase de transição, ouvir Conquerors of Armageddon do Krisiun e Ride With The King do B.B. King e Eric Clapton, ambos de 2000, me fazia sentir dividido, e o pensamento era “Mas eu não tenho como gostar disso, eu sou headbanguer porra!”. O tempo foi passando e comecei a ouvir sons mais carregados pro Blues e Southern Rock até chegar nos nomes da música que eu simplesmente não consegui classificar, como Ana Popovic, Tedeschi Truck Band, Eric Gales, Bernard Allison e Gary Clark Jr. A partir desse momento, aqueles caras cabeludos cheios de pó na ment… digo… digo… cheios de tatuagem, passaram a ser mais alguns no meio de tantos que eu curtia ouvir.

A partir dai foi quando eu comecei a correr atrás de outras coisas. Ainda comprava as revistas de metal pra acompanhar lançamentos, mas quando entrava numa loja de discos, já partia para outras prateleiras. E foi nessa época que ouvi dois discos que mudaram totalmente minha forma de consumir música, quando ouvi Takin’ Off de 1962 do Herbie Hanckock e Buddy and Sweets de 1955 do Buddy Rich e Harry “Sweets” Edison. Ouvir Buddy Rich era algo inacreditável; como um disco VELHO-PARA-CARALHO tinha uma pegada tão moderna e articulada com uma porrinha de bateria de 5 peças? De repente olhar para o Mike Portnoy e Neil Peart e suas naves espaciais perdeu totalmente sentido.

Foi nesse momento que percebi que muitos caras que eu endeusava na verdade eram músicos ordinários, que muitas vezes mal sabiam o que estavam fazendo. E, convenhamos, de gente que não sabe o que está fazendo já basta eu mesmo!

Com o tempo Jazz passou a ser parte permanente das minhas discotecas, Charlie Parker, Dexter GordonMiles Davis e Duke Ellington foram alguns.

Isso tudo nos leva até o resultado de toda essa experiência antropológica. Recentemente assisti Miles Ahead, filme dirigido, escrito e protagonizado por Don Cheadle, que reinventa o período em Capa do filme Miles Aheadque Miles Davis esteve totalmente inativo na música e totalmente ativo nas drogas. Apesar de a esta altura já ter mudado minha visão sobre o que é o Jazz, ainda tinha a ideia de ser algo suave, extremamente técnico, muitas vezes energético, mas sempre com a imagem do piano de cauda, uma mulher de vermelho com as longas pernas de fora da fenda do vestido e um enorme decote expondo um belo par de seios, um baixista tocando um contra baixo acústico gigantesco, copos de whisky e muita fumaça de cigarro. Cara, no filme tem de tudo, menos glamour. O filme é punk do começo ao fim, e quando eu acabei de assisti eu pensei; “Isso sim é uma parada que eu vou ouvir!” e a Digníssima que sofreu tendo que ouvir Miles Davis o resto do mês.

Não ia adiantar se eu assistisse esse filme 10 anos atrás, ou se quando eu tinha 15 anos alguém me dessem um disco do Coltrane ou do Jo Jones. Provavelmente eu ia achar CHATO-PARA-CARALHO, na época eu ansiava por uma energia totalmente diferente, são mundos totalmente diferentes, mas que com um pouco de boa vontade podem coexistir.

Eu não deixei de ouvir metal, muito pelo contrário, isso só abriu mais ainda meu apetite em encontrar boas bandas. Isso fez com que eu valorizasse ainda mais as bandas que encontro por ai; para hoje eu parar e ouvir um disco inteiro de Grind ou Gore ele tem que ser um PUTA disco de Grind ou Gore. Meu filtro atualmente é muito mais refinado para estilos nada refinados (isso faz algum sentido?); com o tempo parei de ouvir bandas genéricas para começar a ir até as fontes, ou, pelo menos, para bandas genéricas autênticas (acho que isso faz menos sentido ainda). Com a enxurrada de informação que somos bombardeados hoje, eu não tenho como “perder” tempo com uma banda que não me satisfaz, só porque todo mundo tá ouvindo.

O problema de qualquer consumidor de nicho é sempre esse, é a praga do “O meu é melhor que o seu”. Uma vez ouvi a seguinte frase “Quem não sabe música, toca rock n’ roll.” não faço ideia quem é o autor da pérola, mas imagina se esse cara ouvisse funk carioca… provavelmente teria uma série AVCs e implodiria. Pra mim, foi questão de tempo até reconhecer os méritos de outros gêneros, minhas discotecas são recheadas principalmente de Metal, Funky (é bom colocar o y pra diferenciar), Soul, Rock, Jazz e Blues, algo que seria impossível alguns anos atrás, todos dividindo espaço e convivendo em paz e harmonia.

Miles Ahead não foi o motivo do meu desprendimento, tampouco me apresentou um novo e maravilhoso mundo, mas me fez abrir os olhos e perceber o quanto meu gosto tinha mudado, dentre algumas reflexões pessoais, mas ai fica por conta de cada um.

Então fica uma dica de filme, se você quer ver um filme biográfico sobre um puta músico, desmistificar algumas crenças e de quebra ouvir umas musicas boas, assista Miles Ahead. Vou deixar a trilha sonora ai em baixo, assim já dá pra resolver se vale ou não assistir, apesar deu recomendar FORTEMENTE que você assista (porra!!).

Link: https://open.spotify.com/album/2NJ0qZ1UNsiESTmFSQDkT1
URI: spotify:album:2NJ0qZ1UNsiESTmFSQDkT1

Obs.: Eu queria fazer um post gigantesco, mas virou uma loucura. Depois publico em 2 ou 3 partes.

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