Bandas Fake

Nunca imaginei um dia isso viria ser uma questão que deixasse tanta gente discutindo sobre certo e errado, a autenticidade de uma banda com relação à imagem que a mesma se vende. Tudo bem que qualquer banda que ganhe mais que 10 reais em um show é vendida e qualquer banda com um lançamento diferente de uma demo mal gravada, “já não é a mesma coisa de sempre”, mas vamos ao que interessa.

Recentemente me deparei com uma capa de disco, muito foda, a imagem era essa:

Desculpe-me se não compartilhamos do mesmo senso de estética… Não, pera ai, o que eu to falando?? Se você não gostou, o problema é seu!! Eu gostei pra cacete!!

De modo geral, hoje em dia as capas são totalmente digitalizadas, mega coloridas, cheia de efeitos, parecem até capa de jogo de vídeo game. Antigamente elas cumpriam seu papel, me conquistavam e eu parava pra ouvir o disco, normalmente era uma merda, mas ai já era, já tinha baixado… Digo, digo, comprado. Essa capa em especifico me chamou atenção pela fotografia, “Moon Lover” é o nome do álbum e na imagem mostrar uma mulher amarrada com um objeto em forma lua atada à cabeça com a corda passando pela boca, comunidade BDSM mandou um abraço.

Pouco tempo depois ouvindo algum programa de metal levantaram a questão sobre bandas “fake”, mas não exatamente fake do tipo The Monkees, fake no sentido da banda inventar uma história qualquer para se promover, durante as discussões ouvi o nome “Ghost Bath” algumas vezes, deixei para dar uma procurada depois e veja você, olha o que eu descubro, sou presenteado com a mesma capa que havia visto.

Mas e ai, o que tem de diferente essa banda? Você me pergunta.
Assim, pelo pouco que parei para ler, eles alegavam ser uma banda de black metal. Mas tá, qual o problema disso? Tem toneladas delas por ai, mas quantas você conhece que são originarias de Chongqing. Ah, você não sabe onde fica isso? Fica na CHINA!!
Cara, sério, quantas bandas de black metal da CHINA você já ouviu? Eu acho que já ouvi banda de tudo quanto é lugar, mas parando pra pensar 2 segundos, da CHINA eu acho que nunca ouvi porra nenhuma! Tem gente pra caralho lá, mesmo assim Indonésia e Malásia tem mais bandas de metal que na CHINA!!! Coisas chinesas eu só conheço a China In Box. Pera ai, como assim China In Box não é chinês? Ok, esquece…

Essa foi a comoção, uma banda de black metal “boa” da china; É até meio xenofóbico se você parar pra pensar, mas não se falava em outra coisa. Todos os estoques de LP e Singles deles no band camp estão indisponíveis, vendeu a porra toda. Recentemente descobriram (sei lá como) que na verdade eles são de North Dakota, USA. Algumas pessoas ficaram bem irritadas com isso, sabe?

Cara, sinceramente, até aqui eu não me importo com toda essa conversa, eu li muito pouco sobre Ghost Bath, muita gente amou e muita gente odiou, como qualquer coisa na internet hoje em dia. O som dos caras é bom, definitivamente não é o tipo de coisa que escuto hoje em dia, é uma variação do Black Metal que a galera de Doom vai gostar bastante, um som pesado, uma atmosfera obscura, uma melodia bem carregada e arrastada, tem seus momentos mais elevados e acelerados que praticamente me levam como se fosse outro álbum, mas os vocais lamuriados permeiam todas as músicas me puxando de volta. Se é bom, ou ruim, vai depender de cada um, mas eu acredito que o mérito da banda seja muito maior pela criatividade musical que pela criatividade da lorota, tire suas próprias conclusões.

O ponto alto dessa discussão pra mim é: Isso é novidade?
Não, no mundo da música isso sempre existiu, alguém sempre vai ocultar uma passado monótono e sem graça, sempre vão inventar histórias absurdas, o cara que fala que montou a banda com seus colegas de pelotão no exército depois de voltar de conflitos no Afeganistão. As pessoas gostam de comprar essas histórias, Xuxa com pacto com diabo por exemplo, eu tenho certeza que foi ela que inventou isso para vender mais discos para criancinhas tocar ao contrario.

Todas as bandas de Black Metal tem essa mística em torno de si, já conheci integrantes de bandas que o pessoal tinha medo de chegar perto, dizia a lenda que eles faziam rituais satânicos e blá blá blá, não demorou muito tempo, conheci os caras e descobri que eles mesmo espalharam os boatos, apesar de realmente serem entusiastas do tinhoso, não faziam nada que nenhum adolescente ligeiramente descerebrado faria.

Season Of Balaur

Algumas coisas as pessoas levam a sério de mais, metal no geral é populado por uma galera “o meu é melhor que o seu”. Cara, sério, pega QUALQUER banda onde os integrantes usam codinomes, roupinhas para o show, pintam a cara, isso não é um circo do caralho? Recentemente apareceu o Season Of Balaur, outra banda de Black Metal “fake”, assinaram com Season of Mist recentemente, a banda lançou (eu acho que já lançou…) simultaneamente ao disco uma HQ. Veja você, uma banda que não existe, assina com uma gravadora que existe. Os caras tem um página no facebook onde se descrevem, que são de Oslo (Noruega), blá blá blá, fizeram parte da primeira onda de Black Metal com Burzun e sua patota. É tudo parte de uma história para criar contexto para uma banda fictícia, qual a grande diferença disso para Dethklok? A aclamada banda da série de TV que se transpôs para outra mídia, também não é uma banda de mentira? A diferença é que nesse caso começou como um desenho animado e lançaram os CD da banda do desenho? É isso? Se for ao contrario não pode?

São as histórias se repetindo, alguém ainda lembra do Gorillaz? Em 1998 “o cara do Blur” teve a brilhante ideia de fazer uma parceria com um Quadrinista, criar background para uma banda, personagens, histórias, toda uma “trilha sonora” para essa galera e isso foi um sucesso do caralho, o primeiro disco vendeu MUITO. Não sei como como anda a banda hoje em dia, mas sei que depois de um tempo “o cara do Blur” passou a se dedicar full time no Gorillaz, imagino que a grana devia estar entrando muito bem.

Eu gosto pra caralho de Dethklok e estou ansioso para saber como vai ser o desenrolar para se lançar um novo disco sem os direitos do desenho, mas só porque a banda é “fictícia” não quer dizer que quem tá produzindo o material por trás não está fazendo com afinco. O som é maneiro pra caralho, lembro que quando foi lançado o Dethalbum III, várias personalidades exaltavam como era bom, se não me engano em algum entrevista na época do lançamento Tony Iommi tinha mencionado como melhor álbum do ano, ou qualquer coisa do tipo.

Dethklok versão desenho

Dethklok versão “real world”

Os caras fazem shows, se apresentam, lotam casas e vendem horrores, faz alguma diferença se teoricamente a banda é um “teatro”? TODA banda é uma caricatura sem fim, T-O-D-A, cabelos, roupas, entrevistas, tudo é organizado para banda ser vendida de forma X.

  • Foi assim com Elvis;
  • Foi assim com Beatles;
  • Foi assim com Sinatra;
  • Foi assim com The Clash;
  • Foi assim com todo mini artista do Disney Chanel;

Se você não sabia disso, por favor, não chore! Mas artistas são moldados para agradar ao seu publico, são guiados em caminhos que mantenham dinheiro entrando e pessoas comentando (viu, tbm sei fazer rima :D). O pessoal quer chamar atenção de qualquer forma, quanto mais eu lia sobre banda fake mais histórias bizarras apareciam, o auge foi uma banda-iraquiana-anti-islamica-de-balck-metal-com-uma-vocalista-mulher com um single intitulado Burn the Pages of Quran, preciso nem dizer por que a banda chamou atenção né? Desenterraram varias evidencias de que a banda na verdade pode ser um cara gordo de 40 anos no cu de judas, ou simplesmente uma iraquiana tentando preservar sua identidade. Eu entendo que deve existir autenticidade em como a banda se apresenta, mas não sou eu que vou ficar pagando de detetive da internet, pode não parecer, mas eu tenho mais o que fazer! Eu não escuto uma banda por ela ser da Republica Tcheca, Israel, Uganda ou França, eu escuto porque é boa, saber que é de outro pais é algo a mais, não o contrario. Descobrir a nacionalidade ajuda a entender as influências, situação politica, forma de pensar, background cultural e principalmente buscar algo diferente do ordinário,

Pra fechar, uma das bandas que mais me fez feliz em ter descoberto: GWAR

Sim, isso que você está vendo é exatamente a banda e exatamente como se apresenta no palco… Diga-se de passagem, dizem que no palco é pior ainda, com direito e pênis gigantes, banho de sangue, “sacrifícios humanos” músicos gordos com bunda de fora e tudo o que o povo gosta. Ai você me pergunta: “Qual é a parada do GWAR?”

Cara, a banda vem desde a década de 80 e não conta com mais nenhum membro original, acho que desde o inicio não sei se intencional ou não, mas os integrantes iam rotacionando, sempre variando a galera que participa. Mas e sobre as fantasias? A explicação é que GWAR é um grupo onde os integrantes são de uma raça de guerreiros alienígenas (os Scumdogs)  de um planeta muito distante. Ok, você pode ler novamente, mas é isso mesmo que você leu! A identidade visual e artes giram em torno dessa mitologia, os cara usam fantasias mega grotescas e GIGANTES, o fio central das letras é como se fosse a historiografia desta raça e suas “aventuras” neste maravilhoso planeta onde escravizaram a humanidade durante milhões de anos, falam de violência, uso de droga, sexo, prostitutas, prostitutos, escatologias (não o sentido bíblico), obscenidades, sátiras sociais e politicas. Mas tudo da forma mais extrapolada possível.

E ai, tem como levar isso a sério?
Quando ouvi pela primeira vez foi o disco Beyond Hell de 2006, eu não sabia de nada dessa palhaçada de alienígenas, mas eu ouvia sem parar!! É muito bem feito, bem produzido, do caralho! Tempos depois escutei uma entrevista com Dave Brockie a.k.a Oderus Urungus, era uma loucura, um cara maluco falando de planetas, crack, scumdogs, demônios saindo da virilha e escravas. Então eu resolvi digitar o nome da banda no google, preciso nem dizer a minha reação né? Até entender essa putaria toda que é a “história” da banda fui ouvir outros discos, alguns tem uma pegada bem forte punk, outros mais metal, as produções foram melhorando com o tempo e ficando mais rebuscadas. O último disco mal da pra acreditar que é um disco que saiu dessa sacanagem toda

Duas letras que eu gosto pra caralho, uma delas é Go To Hell, em que ele descreve o inferno e diz:

From what I’ve heard it’s a pretty cool place
A sea of urine where rats eat your face
A sadist like me can pursue his vocation
I’m goin’ to hell because I need a vacation

Metal Metal Land, que fala de uma terra distante, bem… precisa expliar??

There’s a world of which I’ve heard
Far beyond the sky
A place of chicks and pills and booze

A place where winners always lose
You’ll always hear your favorite band
Here in metal, metal land

Lógico, que pra mim sempre encarei tudo através da ótica do humor, tipo quando você assiste a um filme B ou qualquer filme do Tarantino e não tem como você encarar aquilo seriamente. Eu curto, escuto as músicas que gosto e sigo em frente “há, há, olha só que engraçado”.
A conclusão que eu chego é que a banda tem que ser de mentira ao ponto de não ser crível, ultrapassar qualquer limite da realidade para a pessoa poder acreditar nela, muito doido não? Caso contrario, se transparecer que o que estão tentando fazer é te iludir e não te persuadir, a banda é fake. Isso tudo só passa a ser problema quando se é um fã MALA, publico normal não tá nem ai pra isso.

Agora que você já recebeu o briefing do papo, trás duas cervejas e vamos colocar a conversa na mesa.
Bandas Fake, rola ou não rola?

PS.: Vergonhosamente até hoje não falei de GWAR ou Dethklok, tá na pauta pra escrever sobre essas faz muito tempo.
Logo, logo solto por aqui.

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Um comentário em “Bandas Fake

  • 26/10/2016 em 18:38
    Permalink

    Vejo essa banda e penso no Massacration. Será que você vai me bloquear com esse comentário? hahahahhha

    Resposta
    • 30/10/2016 em 11:55
      Permalink

      Mas eu tiva que me segurar muito pra não falar do Massacration!!
      Que na época pra mim era “Aquela banda da MTV, sabe?!” rsrs

      Resposta

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