Entendendo [#2] Black Metal

Cara, acho que esse é um dos subgêneros mais controversos e difíceis de ser digerido, mas também foi o que criou terreno para muita coisa que consumimos hoje em dia, muita coisa que quero falar mais pra frente e preciso falar de Black Metal antes.

O que é engraçado, a forma como mudar pequenas nuance em um estilo e deixar ele totalmente diferente. Isso é o que mais gosto em misturas e incorporação de outros aspectos e gêneros que não tem nada em comum.

Bom, seguindo, Black Metal!

Conheci o Black Metal quando a festa já estava quase acabando, no final da década de 90′.
Fui apresentado com um soco na boca do estomago, ouvindo coisas como Burzum, Mayhem e Darkthrone, não preciso dizer que não gostei nem um pouco. Lembro que não se falava em outra coisa, alguns amigos não ouviam outro estilo, pensei comigo mesmo “Isso TEM que ser bom, ninguém fala de outra coisa… Vou ouvir pra ver colé!”. Auxiliado por um amigo que já era intimo com os sons obscuros e macabros, peguei uma fita K7 bolorenta e mofada, coloquei pra tocar, a música começava e eu ainda estranhava aqueles acordes que saiam da minha humilde caixa de som. Som que era idêntico ao que eu produzia quando tentava gravar uma música simplesmente colocando o microfone no alto falante, eu, na minha posição inocente de ignorante, perguntei: “Você gravou isso direto do rádio, porra?” O amigo em questão me olha com cara de pensar e responde. “Cara, isso é Burzum, é assim mesmo.”.

Durante muito tempo essa foi a imagem que carreguei do Black Metal.

Algumas características bem marcantes espantam o público, que já são boas de serem salientadas logo de cara;

– Satanismo/Anticristianismo (normalmente) exacerbado;
– Gravações intencionalmente de baixa qualidade e cruas (lo-fi para os íntimos);
– Capas em preto e branco (não é escala de cinza, é PRETO e BRANCO mesmo, como a xerox de – antigamente);
– Logotipos próximo ao indecifrável (alguns são bem foda, outros são bem de sacanagem);
– Vocais grunhidos em tons altos (grunhido, guinchado, gritado… como quiser);
– Uso constante de tremolo picking (aquela palhetada constante e rápida, normalmente em notas mais altas);

Atualmente temos isso como pilares do Black Metal mais underground, pelo menos para bandas que tentam fazer um som não muito distante do B + A = BA. Mas falar de demônios, sombras, escuridão em uma gravação porca e mal feita não é novidade, Black Sabbath já fazia isso, além de trocentas outras bandas, mas então, qual é a diferença?

O principal percursor foi o Venom, que na naquela época não era nada próximo a nossa visão de Black Metal atual, na verdade todas as bandas daquele período eram muito parecidas umas com as outras, com raras exceções. Quando todo mundo bebe das mesmas fontes (cheira, fuma, injeta ou qual for a forma de se absorver dessa fonte) do Punk e do Heavy Metal, é no visual, nas letras e nas capas dos discos onde dava pra começar a diferenciar um pouco os estilos.
Os dois primeiros discos do Venom, Welcome To Hell (1981) e Black Metal (1982) criou terreno para o Death Metal, Thrash Metal e Black Metal, tudo que hoje em dia é mais ou menos chamado de “Metal Extremo”, mas não necessariamente por conta do background “black”, mas por ser uma novidade no Rock n’, Roll, ser amalgama de tudo o que existia na época e transformar em alguma coisa mais obscura. Se você comparar com o Motorhëad, do Motorhëad, lançado em 1977, eles são muitos parecidos até. E sabe qual é a diferença? Basicamente as letras e a forma de se promover. Grande parte das bandas mais pesadas da década de 80 citam Venom e Motorhëad como principais influencias.
Welcome To Hell (1981) tem uma das capas que eu considero uma das mais fodas já produzidas, é marcante, icônica e de certa forma bem simples, inclusive fica a dica para quem quiser me dar uma camiseta, eu visto M ok?
Algumas bandas estavam ali no meio, Bathory, Hellhammer e Celtic Frost, todas creditadas como percursores do Black Metal, e de fato são, mas veja bem, apesar de terem definido o que viria a ser um gênero a parte, elas mesmo eram bandas de Heavy Metal, Speed Metal ou até algo bem mais próximo ao Thrash. Pra mim eram bandas muito mais na pegada de fazer um som mais obscuro e macabro do que propriamente fazerem parte de um estilo diferente. De novo fazendo uma comparação, Sodom é uma banda amplamente consagrada no Thrash, mas também estava ali no meio e também deixou a sua contribuição para gerações futuras, seguir determinado caminho para cada banda é uma evolução orgânica.
Ah, não posso deixar de falar que o segundo disco do Venom foi o que veio a cunhar o termo Black Metal. Se eu não falo isso os milhões de leitores vão reclamar.Bom, chegando à década de 90′ era a vez de novas bandas consolidarem o Black Metal, a Noruega teve grande representatividade sendo local de origem de alguns dos maiores nomes na cena. Mas desta vez sim, com intenção de se destacar do cenário musical, com bandas levando ao extremo todo o conceito apresentado até então.

Até aqui eu apresentei o teatro sociocultural histórico, e é bom ressaltar que divido o Black Metal de duas formas. A galera underground, mala, que fala merda e bota fogo em igreja porque a mãe não deu sorvete depois da janta. E a galera que tá mais interessada em fazer música e show.

Existe toda uma mística em torno da cena Black, alavancada por suicídios, bilhetinho de suicídios, homicídios, piromania, pessoas fazendo sexo ao vivo – opa, não, pera aí, sexo pode! – crucificações e mais uma tonelada de noticias de veracidade duvidosas. Se você quiser saber mais sobre todo esse mundo de fofocas, não falta site destrinchando esses assuntos, eu simplesmente não tenho o menor saco para falar disso.

O Black Metal passou a ser referencia de um povo semi-doente, reclamando de tudo e de todos, falando muita merda, em um formato de mídia muito mal feito. Virou terreno quase que exclusivamente para antissemitas, racistas, fascistas, hiper-nacionalistas, antirreligiosos e adoradores do tinhoso. Acredito que tudo isso seja creditado a galera underground mala que mencionei a cima, mandaram um sinal ao mundo inteira dizendo “Se você não tem onde agredir as pessoas, esse é o seu lugar! Venha comer um pedacinho de cérebro com a gente!”

Tudo isso moldou um estereótipo originado por uma parcela minúscula (literalmente 2 ou 3 imbecis) no meio de muita gente que se aproveitou de todo potencial de marketing capaz de ser gerado por essas histórias. Algumas coisas eram teatrais, outras eram verdade, mas não dava pra se negar, o Black Metal virou mainstream como qualquer outro gênero musical. No meio de tanta noticia em mídias tradicionais, algumas bandas começam a se sobressair, o corpse paint (aquela pintura que o Kiss já usav… Digo… Digo… Mercyful Fate/King Diamond usava) passou a ser padrão, toda banda tinha que usar, onde cada uma tinha a sua identidade. Sempre fiquei imaginando antes do show aquele monte de cara se maquiando, tal como uma modelo antes de entrar na passarela, é muita fofura.

Com o passar do tempo, algumas bandas foram amadurecendo, outras novas surgiram e subgeneros emergiram de todo o oceano de merda criado anteriormente. Os discos já passavam a ser produzidos decentemente, os temas e letras já variavam muito conforme cada banda, o gênero deixava de ser algo exclusivo para branquelos noruegueses criado a leite com pera. Inicialmente, o problema do Black Metal era o mesmo que sempre acompanhou o Rock ‘n Roll, obrigatoriedade de ser underground, elevado a décima potencia eu diria. A banda tinha que fazer show em porões mofados, ter disco vendidos para meia-dúzia de pessoas, não abordar temas da moda e não conseguir fazer dinheiro nenhum com shows e vendas.

Da mesma forma que o Heavy Metal se desdobrou e ainda se desdobra em MILHÕES de caminhos, assim também foi com o Black Metal. Bandas de fora da Europa passaram a utilizar a estrutura criada anteriormente para incorporar suas próprias culturas locais, temas e letras passavam a variar, o estilo deixava de ser música de protesto anti religioso para ser mais uma forma de expressão.

A verdade é que apesar de toda controvérsia em torno de assassinatos, suicídios e incêndios de igreja… Ok, essa frase não faz sentido, não tem como defender os caras. Vou tentar de novo.
A verdade é que, o que nasceu como um movimento de contra cultura (me atrevo a dizer basicamente ser contra cultura cristã) acabou se perdendo no meio do caminho, o cara tem o direito de reclamar da imposição cristã, mas por causa de um punhado de lunáticos, o estilo foi condenado durante muito tempo a ser algo sem mérito. Criticas religiosas e menção aos planos infernais era uma coisa feita há muito tempo, sempre rechaçada principalmente nos estados unidos, mas não chegou a ter a má impressão no próprio cenário do metal, a galera do hard rock, heavy metal, punk e afins não conseguia assimilar, o conjunto da obra as vezes beirando o bizarro causava e ainda causa muita estranheza.

O Black Metal pra mim perdeu essa aurá toda quando vi entrevistas e documentários onde músicos falavam de música, pessoas falando dos motivos de ser fazer esse tipo de som, famílias inteiras com filhinhos e poodles numa van indo para uma turnê, caras sentados num sofá falando de religião enfim, eram pessoas normais, que tinham muita mágoa em seus corações, eles só precisam de um abraço!

Acima de tudo, percebi como um estilo autentico quando conheci bandas como Enthroned, Dimmu Borgir e Nokturnal Mortum, onde eu ouvia músicas bem gravadas, com solos bem feitos e um estrutura mais organizada do que a bagunça underground. Enthroned apesar de ter suas histórias desajustadas, foi a primeira banda “satânica” que eu ouvi que consegui curtir o disco inteiro, Carnage In World Beyond de 2002, pra mim já parecia ser algo mais profissional. Para escrever especificamente este paragrafo eu peguei nesse disco novamente, ainda me soa como um bom álbum, recentemente eu ouvi os últimos do Gorgoroth, Marduk, Immortal e Behemoth por sugestão do Spotify, e cara, o som não era “mal feito” como eu me lembrava, algumas já tinha uma pegada mais Death, outras mais Viking e em alguns casos até simplesmente mais Heavy.

Quando monto as listas pra esses textos maiores tento buscar bandas mais ligadas ao cerne do assunto, mais próximas a proposta inicial do gênero, mas dessa vez vou buscar material que tenha um som mais aprazível, ou seja, bandas que eu gosto, discos mais recentes, músicas mais trabalhadas, enfim, nada muito underground.

Vale ressaltar que não incluí nada que tenha sido gravado de dentro de um banheiro.
Espero que gostem, se não gostarem não vem encher o meu saco, vai lá no concorrente reclamar de alguma coisa que ele gosta.

Link: https://open.spotify.com/user/flopes23/playlist/6x1LOirkTnxUvyLTLmnRTt
URI: spotify:user:flopes23:playlist:6x1LOirkTnxUvyLTLmnRTt

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